sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

A FONTE

Outro dia uma leitora me perguntou de onde vinha minha inspiração pra escrever semanalmente. Pra começar, não escrevo religiosamente toda semana. Posso passar dias sem vontade de escrever e de repente, bum, a coisa vem e eu me solto e passo horas debruçada no computador, ou rascunhando com qualquer coisa que rabisque (já usei até lápis de olho pra anotar uma frase que me veio, assim, do nada, em uma sala de espera) e uma coisa me leva a outra, a outra... Cada texto é quase um parto sem dor: tem começo, meio e pimba, a história nasce. Bem ou mal, mas nasce. Muita coisa me inspira, quase tudo me inspira... Quisera poder observar mais, sorver mais, sentir mais, escrever mais... Vou dar um exemplo. Terça-feira passada, um amigo me convidou pra almoçar. Um risoto surpresa. Aceitei de pronto. Gosto de jeito desajeitado de cozinhar do meu amigo. Saí de casa com a intenção de comer bem, falar de um livro cuja crítica ele lera na Veja, tomar um cafezinho, depois trabalhar e só... Minha intenção não bastou. A alguns metros do meu destino, bum, lá estava eu envolvida em um acidente de trânsito, e meu almoço trocado por um telefonema pra seguradora, um B.O. no DETRAN (até agora me pergunto pra que serve o tal papel), muita conversa jogada fora, oficina mecânica... Felizmente já passou. Já esqueci. Foi só lataria. Mas ainda lamento o risoto que não provei, acredita? Não gosto de desperdício de alimentos, muito menos de desperdício de bons momentos. É assim que funciona comigo. Até uma amolação pode me servir de (ins)piração. Meu amigo não me deu detalhes do preparo do tal risoto. Agora estou eu, aqui, matutando pra achar uma receitinha que se encaixe nessa conversa... Já que falei em desperdício, que tal apurar um bocadinho l’art d’utiliser les restes? A arte de utilizar as sobras pode ser surpreendente. O “Viradinho Valente e Viril” é a prova disso. Use 300gr de sobras de carne desfiada ou em cubos, 60gr de manteiga, alho laminado a gosto, 1 cebola picada, 1 concha de feijão cozido e escorrido, bacon picado frito, 4 ovos mexidos, 1 xícara de passas sem sementes, 300gr de sobra de arroz branco cozido, 1 fio de azeite, ½ xícara de castanha de caju picada.
Refogue a carne na metade da manteiga. Em outra frigideira, doure a cebola e o alho com a outra metade. Junte o feijão, o bacon, os ovos, as passas e por último o arroz. Regue com azeite. Junte as castanhas e sirva. É pra comer sem frescuras!
Bon appétit!

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

O QUE OS OLHOS NÃO VEEM, O PALADAR SENTE

“Dans le noir” (No escuro) é um restaurante parisiense criado a partir dos conceitos da exposição “Diálogo no escuro” (montada desde 1988 em um bocado de países), em que os participantes são orientados por guias com deficiência visual, em um ambiente escurecido. No Dans le noir o jantar é completamente às cegas e os comensais têm, assim, o paladar desafiado. Uma experiência sensorial, no mínimo, curiosa e, sem dúvida, tentadora. Perceber os gostos, os cheiros, as texturas sem a santa ajuda da visão deve ser intrigante e um tanto quanto sensual... É mergulhar nu em um belo lago desconhecido, eu diria. Os menus surprises são propostos por um chef e um perito em vinhos e os clientes estão sempre sob a orientação e os cuidados de pessoas cegas. Quem já aprendeu que uma boa experiência vale mais que uma longa conversa fiada, é só procurar o famoso restaurante na capital francesa (Paris IV), em Londres, Barcelona, NY ou Kiev, e aproveitar ao máximo o simpático escurinho... Todo mundo sabe que goiano vê com as mãos e come com os olhos. Fico aqui, me imaginando, goiana que sou, quase em pânico diante da abstinência visual. O Dans le noir ainda não me pegou, mas está quase. É uma questão de tempo. Depois conto tudo o que vi, digo, o que não vi e sobretudo o que senti no escurinho do restaurante. Fica aqui a ideia: uma refeição de olhos vendados, pra fazer com os amigos mais corajosos. Escolha um menu divertido, com ingredientes originais que lembrem um país específico. Faça, por exemplo, uma entrada mexicana, seguida por uma especialidade marroquina com acompanhamento francês, e finalize com uma sobremesa italiana. Ou ainda, cada participante leva um prato surpresa para ser degustado por todos e quem conseguir identificar o maior número de ingredientes vence o desafio. Prepare comidas que dispensem o uso de talheres ou use somente colheres (nem preciso dizer o motivo). Abuse de aromas como o do café, do chocolate, da baunilha, das especiarias, das frutas cítricas. Mas não abuse dos convidados, incrementando demais os pratos e criando uma confusão dos diabos e pelamordedeus não me venha com 'espuma de champignons' que já é um horror comer (ou beber, sei lá) de olhos bem abertos, imagine no breu. E não convide ‘gatos’, eles enxergam no escuro, vão trapacear. Treine antes fazendo outras coisinhas na escuridão total, pode ser bem interessante.
Bon appétit!

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

"NUNCA IMAGINEI UM DIA"

“Nunca imaginei um dia” é o título de umas das crônicas da Martha Medeiros, publicada em 27 de dezembro de 2009. Trata-se de como nos orgulhamos bestamente em dizer “eu jamais vou fazer isso” ou “nem morta eu faço aquilo”. Ela fala de como essas frases podem limitar nossas chances de experimentar o novo e nos privam de emoções. Ela conta, ainda, como foi difícil recomeçar um relacionamento com alguém totalmente diferente dela sem deixar de ser ela e que abrir o leque de possibilidades é um exercício que amplia nossa visão de mundo. Mulher sabida. Já faz um tempo libertei-me dessas frases e a vida tem sido complacente comigo, generosa mesmo. Nunca imaginei um dia escrever sobre comida, voar de balão, saltar de pára-quedas, atravessar o Atacama, ver um arco-íris no deserto de sal na Bolívia e o pôr-do-sol caramelo nas dumas marroquinas, nem 'sentir' os campos de lavanda da Provence; fazer o caminho de Compostela a pé foi quase um milagre e outros ‘milagres’ aconteceram... Ver as crias das minhas crias talvez seja o maior deles. Mas certamente ainda há um bocado de ‘nunca imaginei um dia’ pra levar a cabo: convidar o Paulo Ricardo (é, to falando do cantor) pra jantar e ele aceitar; cozinhar com destreza lagostas, lulas, polvos e outros bichos estranhos do mar; fazer um safári na África e dar uma volta gastronômica ao mundo; sair nas páginas centrais da Playboy (calma,é brincadeira), aprender a cantar e a gostar de ginástica e por aí vai... Mudar é próprio do ser humano. Aceitar que as coisas mudem, também. Mexer-se é sentir-se vivo. Experimentar e escolher é o que nos molda... As festas de fim de ano estão pra começar. Lá vem tudo de novo, tudo igual: ceia de Natal e o peru pagando o pato; tender, farofa de ameixa, nozes pra quebrar, champagne pra estourar, rabanadas pra engordar; presentes pra comprar; roupa nova pra virada do ano (qual é mesmo a cor da calcinha pra receber 2012?). Queria mesmo era fazer um Natal à la Jesus Cristo, com fartura de amor; e quando a fome apertar, comer pão com azeite, azeitonas rechonchudas e frutas secas; um carneiro assado com figos pra comer de joelhos (aproveite pra rezar e agradecer) e vinho, água, vinho, água... Pra quê mais? Parafraseando a Martha: já que é pouco provável que 2012 seja diferente de qualquer outro ano, que a novidade sejamos nós. Não é lindo isso? Surpreenda-se sempre. Bon appétit.

PRATO INTERROMPIDO

Que ninguém me interrompa enquanto escrevo.
Interromper é romper no meio, é interferir ou ferir no meio de uma ação. É romper, ferir, rasgar, desmanchar o que foi começado. Uma interrupção está frequentemente associada a algo negativo. Uma reunião, uma conferência, uma viagem, uma conversa decisiva, uma piada engraçada, uma transa apaixonada; o sono reparador, um filme, um concerto, um tratamento importante, um sonho bom; e uma pá de coisas boas, quando interrompidas, geram frustração e desconforto. O silêncio vital, rompido, é quase um golpe fatal. Até xixi interrompido vira transtorno. Porém, uma interrupção pode salvar sua vida, um assalto interrompido, por exemplo. Agora imagine o preparo de um prato gostoso interrompido... Na véspera desse polêmico (?) 11.11.2011 encontrei um velho conhecido perdido de vista. Ficamos felizes com o reencontro. Há uns quinze anos, sei lá, começamos um prato em uma cozinha improvisada no shopping mais antigo da cidade. A confecção da refeição foi interrompida por uma série de motivos que acho desnecessário listar agora. Fomos afoitos. Tivemos coragem demais e experiência de menos. E é claro que uma fórmula dessas só podia dar em nada, ou quase. Mas aqui se faz, aqui se paga. Cá estamos nós, de novo, mais maduros (logo,mais doces, como as frutas?), debochando do ‘erro’ cometido, rindo das armadilhas mundanas, das teias tecidas pelo tempo. Ah, meu caro Pierre, nosso baião de dois destemperou, passou do ponto, desandou. Seguimos rumos diferentes. Só não foi em vão porque esse mundinho é mesmo uma ervilha: é miúdo, rola pra lá, rola pra cá e mostra que algumas coisas ainda estão no mesmo lugar, ficaram ali, engavetadas. Sei que você é ‘bom de arroz’ e se também for ‘bom de feijão’, um novo baião de dois pode dar o que falar. Aqui vai a lista de tudo que você vai precisar. Seja criativo. Providencie 500gr de feijão verde ou mulatinho ou fradinho, 1 xíc. de coentro ou salsinha picados, 2 xíc. de arroz lavado e escorrido, 1 pimentão vermelho picado, 1 cebola grande picada, sal quanto baste. E não se esqueça da manteiga de garrafa, amarelinha e brilhante, pra untar tudo e unir ainda mais os sabores na panela. A propósito, se precisar de uma panela, conte comigo, tenho uma perfeita. E a pimenta pode deixar que eu levo.
Bon appétit!

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

FELIZ POR TUDO

Tenho uma amiga meio debochada que diz que não posso ver um ponto vermelho no calendário que lá vou eu, de mala e cuia, rumo a um destino qualquer. Exagero dela. Mas não se pode negar que ninguém como o brasileiro pra emendar dias úteis com um feriado nacional, de preferência bem no miolo da semana, e tecer o popular feriadão, aproveitar a folga inventada, apertar os cintos (em todos os sentidos) e decolar. Confesso que gosto de voar e gosto de aeroportos. Esse frenesi caoticamente organizado (às vezes nem tanto) me assombra e me diverte. Pois bem, mala e cuia despachadas, só me resta dar uma corridinha pra primeira livraria que pintar (em muitos aeroportos, a única). Experimente viajar sem levar livros de casa, só pra ter uma boa desculpa pra comprar algo novo. Há sempre um livro à nossa espera por aí, eu garanto. Como você pode adivinhar, fui direto para as prateleiras de livros sobre comida. Dei uma espiadela, mas nada me fez salivar ou me abriu o apetite, nada que valesse a pena abrir a bolsa. Mais uma voltinha, feito ritual de magia, em torno da pilha central dos mais vendidos e dei de cara com um livro da Martha, não uma Martha qualquer, aquela que diz que somos todas Doidas e santas, a do Divã, a que fala das Coisas da vida, a De cara lavada, a mesma do Topless, sabe? Pois é, a senhora Medeiros também é Feliz por nada. Comprei o livro. Recheado de crônicas leves e gostosas, Feliz por nada, mostra que somos o que somos, um bando de imperfeitos bem-intencionados (ou não) e que o melhor lugar pra se estar, independentemente das circunstâncias, é dentro de um abraço. Abri o livro, ali mesmo, na sala de embarque, feliz da vida, feliz por tudo, feliz de graça. Li a primeira, comecei a segunda: Quando Deus Aparece. “Não sendo visível aos olhos, ele dá preferência à sensibilidade como via de acesso a nós.” Fiquei ali, lendo, num chororô por dentro, discreto, mas incontrolável, sentindo e aproveitando mais uma aparição de Deus, desta vez nas palavras da Martha. Tentei segurar as lágrimas, quase consegui; prolongar o deleite do momento, em vão. Anunciaram meu voo. Como pensar em comida em uma hora dessas? Só consigo pensar em doçura, em anjos humanos ou não. É isso aí, vou fazer o Pudim dos Anjos (pra você, Martha), com 1 cx. de maria-mole de coco, 200ml de leite de coco, 1 lata de leite condensado, 1 cx. de creme de leite e 2 ovos (se quiser). Dissolva a maria-mole em 1 xc. de água fervente. Coloque tudo no liquidificador e bata bem. Despeje numa forma para pudim, previamente caramelizada, e leve à geladeira por, pelo menos, 4 horas. Incremente com o que seu coração pedir. Bon appétit.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

RECHONCHUDA, CHEIROSA, GOSTOSA

Cozinheiro perspicaz cozinha com os produtos da estação. Escolher o que se tem em abundância nas feiras e nos mercados é meio caminho andado para o sucesso de um prato. Basta parar, olhar, cheirar, tocar, provar (as provinhas em feiras são um deleite!) e decidir, depois, o que levar. Estamos em outubro, as chuvas estão vindo pra encorpar nossas frutas e encher nossas casas de cor e frescor. Mal posso esperar para ver prateleiras abarrotadas da mais exótica das frutas, a manga. A minha eleita é a manga rosa, por sua casca lisinha de cor vibrante, seu perfume singular e delicado e a textura macia de sua polpa carnuda e gostosa. Comer uma manga rosa madura é quase cometer o pecado da luxúria e comer um monte delas, aí sim, sucumbimos também àquele da gula. Quem se importa... Queremos mesmo é prazer, energia, vitalidade e poesia. Queremos saúde. O resto é balela. As frutas nos dão muito de tudo isso. É a natureza sabida que nos oferece aquilo de que precisamos em cada época do ano. As mangas são vitaminadas, combatem a desnutrição e os radicais livres que nos enferrujam e corroem nossas células. Mas você acha que é por isso que nós as comemos? Comemos porque são lindas e gostosas e salivamos ao vê-las; comemos porque nos enchem de prazer. A natureza é assim para tantas outras coisas... Abasteça sua fruteira e delicie-se com esse Sorbet de Manga. Com a manga consegue-se o mais delicioso sorbet graças a sua consistência aveludada e macia. Use o suco de 1 limão, suco de ½ laranja, 115g de açúcar refinado, 2 mangas rosa grandes e maduras, 1 clara batida. Misture os sucos com o açúcar. Reserve. Faça um purê com a polpa da fruta usando o liquidificador ou o processador. Transfira para uma vasilha grande e junte os sucos. Acrescente a clara batida. Coloque tudo em um recipiente próprio para freezer com profundidade suficiente para permitir bater a mistura outras vezes. Cubra com filme plástico para que congele por igual. Deixe no freezer por cerca de uma hora e volte a batê-la para obter uma textura ainda mais suave e homogênea. Cubra e devolva o recipiente ao freezer por mais uma hora. Repita o processo mais uma ou duas vezes e deixe congelar por completo. Retire do freezer 5-10 minutos antes de servir para ficar cremoso. Se quiser, enfeite com fatias finas de manga e calda de framboesa. Bon appétit.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

RELACIONAMENTOS SÃO COMO SUFLÊS

Quando li: “O autor nasceu para escrever sobre qualquer coisa ligada à gastronomia. Esse livro arrebatador sobre comida, e sobre a vida, foi uma deliciosa surpresa.” “Uma história inspiradora sobre como recolher os cacos com uma espátula de cozinha!” Não hesitei. Comprei o livro. Se você é como eu, gosta de histórias de forno e fogão, encontros e desencontros, também compraria. Aliás, compre-o se quiser. Pode ser que o problema esteja comigo e a chata seja eu, e não Bob Spitz, o autor de Aprendiz de cozinheiro. A obra não é ruim, mas também não sei dizer o que ela é. Os parágrafos longamente descritivos me fizeram saltar centenas de linhas para passar logo de um capítulo a outro. Submeti-me até a perder alguns dos valiosos segredos extraídos de muitos mestres cozinheiros. Fiquei semanas, empacada, na página 106 de um total de 355 (sem contar os agradecimentos) e decidi que a partir dali ia ler somente o início e o fim de cada página e pronto, só pra não deixar inacabado o que havia, antes cheia de entusiasmo, começado. E foi assim que cheguei às ‘breves palavras finais’ do autor. Fui, porém, deliciosamente surpreendida pelo último parágrafo: “... qualquer relacionamento, nessa etapa avançada da vida, é como um suflê. Precisa dos ingredientes certos para se começar, de muito cuidado amoroso, e da consciência de que se tem de trabalhar muito nele para que o ar possa sair. Se não, como qualquer idiota sabe, tudo o que se consegue é uma sopa.” Parei pra pensar. Eis uma verdade: relacionamentos são como suflês. Não sou boa com suflês. Será que também não sou boa com relacionamentos!? Tenho que fazer um suflê! Fui em busca da receita que me livraria do ‘feitiço’. Achei uma relativamente fácil. Vou testá-la, vai que... Soufflé au fromage (suflê de queijo do Olivier): 150g de queijo gruyère ralado fino, 60g de manteiga, 40g de farinha, 400ml de leite, 4 ovos, noz-moscada, sal, pimenta e páprica picante. Derreta 40g de manteiga em uma panela, junte a farinha e misture. Cozinhe por 2 minutos. Junte o leite quente aos poucos, mexendo sem parar e cozinhe por mais 7 minutos. Tempere. Adicione o queijo ao molho e misture. Retire do fogo. Unte uma forma para suflê e aqueça o forno a 200°C. Separe as gemas das claras. Bata as claras em neve com uma pitada de sal. Deixe o molho esfriar e junte as gemas e as claras em neve, misturando delicadamente, de cima para baixo. Coloque a massa na forma e leve ao forno por 30 minutos ou até estar crescida e dourada. Sirva em seguida. Bonne chance. Bon appétit.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

MELANCIA TRÔPEGA

É verão, e verão sem melancia perde um bocado da graça. Sou ‘Magali’ por melancia, mas a menina gulosa que mora em mim já beira os cinquenta, e nessa idade, meu amigo, pode-se um monte de coisas, permite-se muito mais. É o encanto de vários verões acumulados, acredite! Agora, parcimônia fica pra quem ainda precisa dela, pra quem ainda tem a voz embargada, pra quem acha que não pode errar; pra quem rotula e quem se enquadra; pra quem ainda não aprendeu a rir de si mesmo. O tempo é um mestre sábio, mas exigente demais. Tinha, graças a Deus, que ter algo pra compensar os tropeços, as panes do corpo. É a doce rebeldia da maturidade que brota, sabe-se lá de onde... A vida rolando lá fora e eu, aqui, falando da frutona; e nem é a primeira vez que reparto esse assunto com você. É que nunca é tarde pra melhorar o que já é bom. As frutas são assim, absurdamente boas. Outro dia, vi uma reportagem no JH que catalogava as frutas, com ajuda de um especialista, por faixa etária. Adolescentes, moçoilos e moçoilas até os 19 devem devorar maçãs, morangos e açaí pra prevenir a anemia e a obesidade e ‘sarar’ a musculatura. Dos 20 aos 29 anos, a ordem é comer abacate, abacaxi e a bendita melancia que ajudam na regularização do colesterol, como digestivo e atuam na prevenção do câncer de mama e da próstata. Dos 30 aos 39, coco, pêssego e uva reduzem o colesterol. Dos 40 aos 49, dá-lhe caju como diurético, ameixa contra as doenças intestinais e melão que socorre na perda de peso. Chegar vivo e bem aos 50 já é bom demais e até os 59, nunca dispense uma boa manga que previne a desnutrição, a jabuticaba pra reter menos líquido e a pera, sei lá pra quê. Depois dos 70 (tomara que eu ainda esteja por aqui), é a vez da goiaba e da cereja, boas para a circulação e eficazes contra o reumatismo; e as uvas que garantem a longevidade e blá blá blá... Se você reparar, nada foi sugerido dos 60 aos 69. Pois bem, vai aqui uma dica que vale também a partir dos 18. A Melancia trôpega. Compre uma melancia média e madura, lave-a, seque-a. Faça um furo no centro dela com um boleador de frutas. Introduza todo o cano de um funil no orifício e vá regando, aos poucos, com a melhor vodka que tiver. Faça isso durante dois dias (conserve-a na geladeira) e sirva em fatias, no início ou no final da refeição... Ah se ela pudesse, rolaria toda trôpega, feliz da vida, feito gente que saiu da linha, que perdeu o eixo, que se deixou levar. Valha-me Deus, que delícia! Bon appétit.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

ESTÔMAGO

Imagine um conto de fadas para adultos, no gênero do filme francês ‘O fabuloso destino de Amélie Poulain’ e dirigido por Almodóvar... O resultado seria, no mínimo, surpreendente!
Pois é. Estômago é bem isso, “uma fábula nada infantil sobre poder, sexo e gastronomia.” E que diabos eu andei fazendo pra nunca ter ouvido falar antes dessa beleza de filme nacional? Imperdoável. A obra, dirigida por Marcos Jorge, é simplesmente imperdível! Um misto de comédia e drama, em um contexto cru, quase cruel, salpicado de verdades amargas, outras ardidas, outras doces, todas tão, tão reais... O nordestino Raimundo Nonato (interpretado divinamente por João Miguel) acabou de chegar a SP, sem dinheiro e sem endereço (até aqui, uma história banal, quase um clichê). A coisa começa a mudar quando ele consegue um trampo em um boteco medíocre da capital e descobre sua verdadeira vocação: a culinária. A reputação de suas coxinhas espalha-se pelo bairro e nosso ‘herói’ é contratado para trabalhar em um restaurante italiano. Ali, Nonato digere, sabiamente, cada um dos ensinamentos sobre a arte de cozinhar. Aprende sobre ervas, gostos, bebidas, cheiros; aprende a doar-se enquanto cozinha. A essa altura, o tempero do amor já perfuma suas noites com Iria (a talentosíssima Fabiula Nascimento), uma prostituta pra lá de gulosa. Paralelamente a essa história, cenas do cotidiano de Nonato, em uma prisão, nos levam a crer que ele cometera um crime... É na cela que seus dotes culinários fazem com que ele transforme seu destino (e o destino dos outros detentos). Prisioneiros e aprisionados pelo estômago, todos são bandidos e vítimas em uma sociedade com base nas relações de força e poder. Ri, salivei tantas vezes, estarreci-me, tive até que 'ter estômago' para algumas das cenas e como valeu a pena! Um filme vibrante, inesquecível.
Escolhi uma receita do filme que retrata o amor, já que o ódio anda solto por aí. Romeu e Julieta com gorgonzola, já provou? Corte fatias grossas de goiabada cascão e depois modele pedaços menores com aro de alumínio na forma que quiser (coraçõezinhos ficariam lindos). Faça o mesmo com o gorgonzola. Sirva como sobremesa, intercalando o doce e o queijo, sobre um prato bonito. Bon appétit.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

VAI ROLAR UM ARROZINHO?

“Um grão com uma capacidade extraordinária de se adaptar ao meio: pode ser cultivado abaixo do nível do mar e em altitudes de três mil metros; resiste ao calor e ao frio; sobrevive em regiões com umidade abundante e em outras com um índice pluviométrico mínimo, marcadas pela seca e a erosão do solo. Assim é o versátil arroz, alimento dos mais consumidos no Brasil e no mundo...” São palavras de Orlando Diniz, Presidente do Conselho Regional do Senac Rio. Arroz é o assunto do sétimo volume, um livro es-pe-ta-cu-lar, da coleção Aromas e Sabores da Boa Lembrança, uma combinação que deu certo entre o Senac Rio e a Associação dos Restaurantes da Boa lembrança. E eu que, vergonhosamente, ainda não conhecia a ARBL, fui me informar. A ARBL é uma associação cem por cento focada na alegria gastronômica e visa à ‘integração da diversificada culinária’ brasileira. Ela organiza jantares especiais, festivais de comidas e bebidas; incentiva o turismo nacional, promove congressos... Tudo isso com o intuito de deixar gravada ‘a boa lembrança’ na memória gustativa daqueles que desfrutam dos pratos dos restaurantes filiados. A ARBL está presente no DF, no sul, no sudeste, no norte e no nordeste do Brasil, mas parece que por essas bandas, nenhum restaurante ainda se filiou, por que será? Voltemos ao nosso cereal sagrado. Brasileiro é doido por arroz. Tem sempre que rolar um arrozinho pra refeição ser completa. Que não me privem dele, pois eu perderia um bocado da graça de viver... Outro dia, vendo um filme medíocre e previsível sobre um homem e uma mulher que se veem isolados em uma ilha depois de um acidente de avião, pensei: que comida me manteria viva e feliz se tivesse que me isolar e me privar de quase tudo? Nem pestanejei: arroz e banana. Imagine os dois em uma única receita! Anote, faça, convide os amigos e sejam felizes! Esse Risoto de banana com açafrão é absurdamente simples e simplesmente irresistível! Providencie 1g de açafrão (4 envelopes de 0,25g cada), 200ml de vinho branco, 50ml de azeite, 1 dente de alho socado, 1 cebola picada, 200g de arroz arbóreo (até com arroz comum fica bom), 1 banana-da-terra cortada em cubinhos, sal, pimenta do moinho, 1,5 litro de caldo de legumes, 50g de manteiga, 30g de parmesão ralado. Misture o açafrão ao vinho. Reserve. Esquente o azeite em uma panela de fundo grosso. Doure a cebola e o alho. Junte o arroz e a banana, refogue, coloque o sal e o vinho misturado ao açafrão. Coloque o caldo aos poucos sem parar de mexer. Com o arroz cozido al dente e ainda molhado, junte a manteiga e o parmesão. Bon appétit.