sexta-feira, 9 de junho de 2017

O (DES)GOSTO

Uma das coisas que mais me fascinam, é a formação das palavras (outra, você já sabe: comida). O que está por trás da formação de cada uma delas, o oculto nelas, o mistério delas, a raiz... Ando estudando sobre os Chacras. Chacra quer dizer Roda em sânscrito, "pois segundo antigas escrituras, os sábios da Índia antiga os descreviam com formas redondas em suas visões, despertadas pelos sidhis, poderes adquiridos pela prática da meditação. Estão relacionadas às glândulas no corpo físico, mas residem no Plano Astral; logo, se dissecarmos um cadáver, não os encontraremos." Segundo ensinamentos, nossa meta inicial, por essas bandas terrestres, é vencer os três primeiros (num total de sete) por meio da prática de uma nova abordagem consciente, com o intuito de alcançar a ‘luminosidade de Anahata, o chacra do coração’. É no chacra cardíaco que encontramos o alimento necessário para darmos sequência à nossa caminhada espiritual. Porém, foi lendo sobre o segundo chacra que meu coração quase parou. O segundo chacra, denominado Swadhisthana (que quer dizer ‘morada do ser’) ou chacra sexual, está localizado abaixo do umbigo, no baixo ventre. É o chacra da sexualidade, da fantasia, da criatividade. “Aqui, já nos tornamos adultos o suficiente para buscar a continuidade da vida e da espécie”. E por fim, seu elemento: a Água. É ali que nossas ‘emoções são chacoalhadas’, ali estão depositados nossos conflitos existenciais; é nossa fase de adolescência... Ali estão também nossas más águas, isso mesmo, nossas mágoas! Não é fascinante isto? E mais, e certamente não por acaso, o sentido que predomina nesse chacra é o paladar! Olha aí, de novo, a correlação das coisas: mágoa e (des)gosto. E quantas vezes já ouvimos tratarem o ato sexual como ‘comida’! Coincidência? Mais uma coisinha: comida é uma coisa, Alimento é o absorvemos através dos cinco sentidos. Cuide-se! Saúde e bon appétit sempre.



quarta-feira, 31 de maio de 2017

O SUFICIENTE

Quem me conhece sabe que eu funciono como um trem: um vagão puxa o outro, uma conversa puxa outra e é aí que começa a viajação. Então vamos lá. Um dia desses, li na timeline de um amigo que ele havia sonhado com o pai, já falecido, e que o tal sonho fizera lembrar-se de uma frase que seu velho costumava dizer: “Nunca abaixe a cabeça nem levante o nariz, olho no olho já é o suficiente.” E é claro que eu não podia deixar de compartilhar tamanha sabedoria. Porém, foi o ‘suficiente’ que ficou ali, martelando meus pensamentos... o suficiente, o suficiente...
Fui atrás de um texto que li faz tempo, cujo título é Desejo o suficiente para você, de autoria desconhecida. Trata-se da despedida calorosa entre mãe e filha, presenciada por um estranho, em um aeroporto qualquer. Segue um pedacinho: -“Quando estavam se despedindo, ouvi a senhora dizer Desejo o suficiente para você. Posso saber o que isso significa?” –“É um desejo que tem sido passado de geração para geração em minha família. Meus pais costumavam dizer isso para todo mundo... Quando dissemos Desejo o suficiente para você, estávamos desejando uma vida cheia de coisas boas o suficiente para que a pessoa se ampare nelas...”  
Na cozinha, dizemos ‘o quanto baste’ quando não precisamos a quantidade do ingrediente na receita. O quanto baste é o suficiente! Nem mais, nem menos; é a perfeição do equilíbrio; é o bom senso alcançado; é pura delicadeza; é o tempero na medida justa, justa com todos os temperos... A vida se explica também e tão bem na cozinha! Quer saber, a partir de hoje, quando me perguntarem sobre as proporções em uma receita, ah, já estou com a resposta na ponta da língua, afiada como cutelo de açougueiro.
Aproveite a ladainha pra fazer uma Masala indiana, deliciosa e terapêutica, para temperar seus pratos: use cúrcuma, pimenta caiena, canela em pó, gengibre em pó, páprica doce ou picante (ou as duas), cardamomo, grãos de coentro ligeiramente tostados, cravo-da-índia, sal... As medidas, você já sabe! Saúde!
Bon appétit.


segunda-feira, 22 de maio de 2017

SOBRE AMANTES & SABORES



Há muito, muito tempo não escrevo. Não que esteja desiludida com as palavras ou com as comidas do mundo, que são meus temas preferidos; nem é por falta de tempo, que desculpa mais esfarrapada e feia não há; também não é por escassez de assunto ... É que ando meio calada mesmo, das falas faladas e das falas escritas. Há poucos dias deparei-me com uma postagem no FB, cujo título era: Quem é o seu amante? Abri. Era um texto de Jorge Bucay que começa assim: “Muitas pessoas têm um amante e outras gostariam de ter um. Há também as que não têm, e as que tinham e perderam.” Geralmente, são essas últimas que vem ao meu consultório... Elas me contam que suas vidas transcorrem de forma monótona... Enfim, são várias as maneiras que elas encontram para dizer que estão simplesmente perdendo a esperança. Antes de me contarem tudo isto, elas já haviam visitado outros consultórios, onde receberam as condolências de um diagnóstico firme: ‘Depressão’, além da inevitável receita do anti-depressivo do momento. Assim, após escutá-las atentamente... digo-lhes que precisam de um AMANTE! ... Amante é aquilo que nos ‘apaixona’, é o que toma conta do nosso pensamento antes de pegarmos no sono, é também aquilo que, às vezes, nos impede de dormir... é aquilo que nos mantém distraídos em relação ao que acontece à nossa volta. É o que nos mostra o sentido e a motivação da vida... Às vezes encontramos o nosso ‘amante’ em nosso parceiro... alguém que não é nosso parceiro, mas que nos desperta as maiores paixões e sensações incríveis. Também podemos encontrá-lo na pesquisa científica ou na literatura, na música, na política, no esporte, no trabalho, na necessidade de transcender espiritualmente, na boa mesa, no estudo... Enfim, é ‘alguém’ ou ‘algo’ que nos faz ‘namorar a vida’ e nos afasta do triste destino de ‘ir levando’!... Por favor, não se contente com o ‘ir levando’, procure um amante... “ Entendi. Ando muda porque tenho um amante. Estou de namoro com a vida! É um amante complexo e simples ao mesmo tempo, verdadeiro, ético, humano, muito rico e belo... Refiro-me ao mais antigo “sistema de saúde e longevidade na tradição milenar da Índia”: o Ayurveda, que tem como um dos pilares, a Alimentação, ou seja, tudo aquilo que absorvemos através dos cinco sentidos. Cá estou eu, de novo, envolvida com a boa comida e seu poder de nos restaurar e nos elevar... Há alguns meses, já inscrita em um curso, quando soube que a comida exercia um papel muito importante no Ayurveda, arregalei os olhos, meu coração se expandiu, pensei: é aqui que vou ter as respostas para muitas das minhas indagações... Comecei a estudar para aprender mais sobre comidas, o uso das especiarias e suas funções terapêuticas, mas confesso que continuo por um monte de outras boas razões (mas isso é outra história). Ensinaram-me que uma refeição perfeita deve ter os seis sabores: o doce, o salgado, o ácido, o picante, o adstringente e o amargo, e que podemos equilibrar nosso organismo, aumentando nosso poder de digestão através do emprego adequado de cada um deles. É aqui que entram as especiarias com seus poderes “mágicos” de transformação e cura, além de encherem nossos pratos de cores e gostos diversos! Eu, que já tinha uma tendência a fazer algumas “bruxarias” na cozinha, agora estou mais atrevida, tenho aval! E posso afirmar, sem titubear, a cozinha é o útero da casa! Saúde!
Bon appétit!





sábado, 4 de junho de 2016

CHÁ DE AEROPORTO


Há um tempão não escrevo nada. Hoje parece que vai ser diferente. Deu vontade. A frase displicente de uma colega de curso, postada em nosso grupo do zap, puxou o gatilho... Ela está saindo de férias e durante a despedida, declarou: "tomando chá de aeroporto, voo atrasado".
Chá de aeroporto... Chá de aeroporto... Todo mundo (ou quase) já experimentou, a maioria não gosta. Eu gosto. E não é pra ser a diferentona. Posso explicar. Chás são terapêuticos! De um jeito ou de outro, mas são.
Você já viu "Simplesmente amor"? O filme conta nove histórias de amor, mescladas às comédias e aos dramas de pessoas muito diferentes. Pode não ser um filmaço que marcará o mundo cinematográfico, mas o início e o finalzinho da película mostram cenas lindas, relativamente comuns, de pessoas reais no burburinho do saguão de um aeroporto qualquer. Tem choro salgando a dor da despedida; abraços doces festejando o reencontro; beijos picantes temperando a paixão, beijo fraterno, beijo de mãe que tem gosto de salvação; há troca de olhares profundos, aperto de mão, tapinhas nas costas que valem por uma declaração; sorrisos que gritam em silêncio na curvinha tímida dos lábios... Definitivamente, eu gosto de chá de aeroporto! E esse chá, que por vezes é amargo, tem lá sua serventia! Enquanto tomo meu chá, observo: é tanta gente indo, tanta gente vindo; dando adeus, dando beijo, dando bronca, dando birra, dando flores, dando piti... Também tem gente fingindo, gente perdida fugindo (de si mesmo ou de outro igualmente perdido), tem gente com cachorro, com gato, com criança (esse bichinho que se parece tanto com a melhor versão de gente grande)... Chá de aeroporto aguça o pensamento, a imaginação e pode até abrandar o coração se você souber aproveitar! Tem gente que vai dizer que gosto do tal chá porque é de família, está no meu sangue, mas garanto que minha apreciação tem outro fundamento: gosto porque nele tem movimento, conversa fiada, cochicho, bocejo, choro, risos, olhares curiosos, cheiro de café, cheiro de perfume, de suor, cheiro de gente; tem corre-corre pra entrar em filas, corre-corre pra sair das filas; tem criança quase sempre em chororô por não entender o motivo de tanta mala, tanta aporrinhação... Tem sangue circulando, tem vida. Pode ser sua última partida, mas ainda assim, faz parte do espetáculo da vida. Da próxima vez que lhe enfiarem um chá de aeroporto goela abaixo, não reclame, afinal, melhor tomar chá de aeroporto que chá de sumiço!
Pois muito bem, viajação concluída, vamos ao que interessa, já que esse blog é de receitas (pode até não parecer, mas é esse o intuito). A receita é bem simples, porém original, delicada e saborosa: "Ovo cozido no chá". Você vai precisar de: 6 ovos, 3 saquinhos de chá preto, 2 pedaços de anis, 1 pequeno pau de canela, água (claro!), 2 colheres de chá de açúcar, 5 colheres de sopa de molho de soja.
Faça assim: encha uma panela com água. Coloque dentro os ovos e cerca de 5 gramas de sal e deixe cozinhar em fogo médio por 15 minutos. Em seguida, retire os ovos e deixe-os de molho em água fria. Bata a casca dos ovos com uma colher, até que esta comece a rachar. Coloque em uma panela o anis, a canela, os saquinhos de chá preto e os ovos descascados. Junte água suficiente para que os ovos fiquem submersos. Em seguida, adicione açúcar, molho de soja e sal a gosto e mexa bem.
Cozinhe os ovos em fogo brando por 20 minutos. Para finalizar, desligue a boca do fogão e deixe os ovos de molho aí por mais 3 ou 4 horas, dando tempo para que estes absorvam melhor o tempero. . Apesar de ter um sabor delicioso, esses ovos não são recomendados na alimentação de idosos e mulheres grávidas. 
Bon appétit!

segunda-feira, 8 de junho de 2015

PAU DOCE

Foi na página virtual de um amigo real que me deparei com a seguinte pergunta: Você já comeu Pau doce? Pois muito bem, você que me conhece um bocadinho, que vez ou outra compartilha meus escritos, já deve ter uma ideia do tamanho da minha curiosidade no que se refere à comida e afins. Pau doce, pau doce... Por que cargas d’água eu, aos 53, jamais provara um pau doce?! Tive vergonha de deixar a postagem sem resposta. Declarar um sonoro Não seria quase humilhante. Relutei. Mandei ver: Comer, comer, não... Parei por aí e fui buscar, ali e acolá, mais sobre o tal pau doce. Pra começar, descobri que o protagonista dessa conversa tem um monte de apelidos: Bananinha-do-Japão, Chico-magro, Gomari, Macaquinho, Mata-fome, Pé-de-galinha, Tripa-de-galinha, Uva-da-China, Passa-do-Japão... Não, não mesmo, jamais tivera o prazer de abocanhar um pau doce, concluí entristecida. Continuei a busca. O pau doce é uma cápsula seca e marrom-avermelhada, sustentada por pedúnculos carnosos e docinhos, e cada pauzinho contém de duas a quatro sementes amarronzadas. De sabor aprazível quando consumido maduro, deve ser evitado verde por seu sabor adstringente e descartado quando passado, pois fermenta e fica com gosto alcoólico. Na boca revela-se crocante e muito doce, e no final bem fibroso. Foi o que aprendi. Enfim, é um fruto exótico que mais parece um talo; ou seria um talo exótico, doce, fibroso que lembra sei-lá-o-quê?? Quero nem saber, não morro sem provar, pode apostar! Bon appétit!



sábado, 30 de maio de 2015

PAPO SOBRE CORTES

Vou caducar vendo coisas inusitadas no mundo virtual. Um mundo de imagens e palavras desfilando a uma velocidade estonteante, diante de olhos e ouvidos curiosos... É sobre uma dessas imagens que vamos conversar. Trata-se da foto de um produto de supermercado, embalado e devidamente etiquetado, como manda o figurino. A história começa aqui. Sobre a etiqueta com código de barras, lê-se: PRECHECA/ Peso: 1.016/ Preço kg: 16,50/ Total: 16,76. Na parte superior da postagem, a indignação, digo, a indagação: “Alguém me explica que carne é essa???” E é claro que compartilhei a tal foto, na tentativa de obter mais informação para a curiosa parte. Você pode imaginar o alvoroço diante do tão cobiçado talho, e a partir daí, a conversa rolou solta! Resolvi então, na medida do possível, transcrever alguns comentários e dicas sobre a tal precheca a 16, 50 o quilo. De cara, um amigo disse que queria dois quilos sem osso, o que causou o maior espanto em outra amiga que retrucou de pronto: “Essa qualidade de carne não pode ir pro congelador. Vc vai comer tudo de uma só vez?!” A resposta dele é melhor deixar pra lá. Um outro, mais abusado, perguntou se era Friboi e confessou não fazer ideia de como se prepara uma precheca, afinal, ele sempre gostou mesmo é de músculo. Entendi. Uma outra disse que o quilo da precheca estava caro pra cassete; e mais um curioso queria saber se o tal corte ficava perto da sambiquira... Observem que pouco se sabe sobre precheca. Tenho cá meus conhecimentos sobre comidas e afins e prometo não economizar esforços para desvendar o mistério desse talho milenar... Pra começar devo dizer que trata-se de uma parte delicada, de tecido macio, porém firme, suculenta se preparada comme il faut. É um pedaço nobre, mas não se deixe enganar: tem precheca que não vale um pequi roído! Atenção na hora de escolher a sua! Uma boa precheca não se acha em qualquer esquina. Outra dica importante: a cor da precheca não define sua qualidade. Há uma gama de prechecas à disposição. Precheca saudável, gordinha ou magrinha (vai do gosto de cada qual), tem que ser limpa, bem tratada e fresquinha. Outra questão capital: o preparo da precheca. Aqui não há regras severas: cada um prepara a sua à sua moda e desejo. Porém, a melhor precheca é a in-natura, ricamente temperada pela Mãe Natureza. Nada de sal, pimenta ou qualquer outro condimento picante, no máximo, algumas gotas de azeite extra-virgem pra hidratar a superfície, e basta! Receita não vou dar, mas não despreze meus conselhos: precheca vai bem com outras partes igualmente gostosas: combine-a com músculo, picanha e língua. Sirva sempre bem quente (carnes mornas são indigestas) e terá muita satisfação. Aguce sua fome e aproveite! Bon appétit!


domingo, 29 de março de 2015

REFLEXÕES DOMINGUEIRAS

Passei um pedaço da tarde deste domingo na companhia de duas amigas que estão a mil com um projeto novo: a produção de conservas artesanais: tem a caponata de berinjela, a conserva de batatinhas, e a de alho que fica suave e crocante como uma castanha. Todas deliciosas, preparadas com ingredientes de primeira linha e muita, muita dedicação. De volta pra casa, sob uma chuvinha preguiçosa, desci os vidros do carro pra deixar os pingos lerdos e frescos entrarem pelas janelas... De que adiantariam o azeite extra virgem espanhol, o vinagre de maçã, o bom vinho branco seco, os temperos fresquinhos, a medida certeira do sal e da pimenta, se não houvessem a criatividade, a competência, o capricho, a dedicação e o carinho no preparo? Juntei as pontas, conclui: boa comida e relacionamento amoroso precisam das mesmíssimas coisas: ingredientes bons e algum savoir-faire pra virar uma coisa boa, caso contrário, o “negócio” fracassa! Saí há pouco de um relacionamento que contava com bons ingredientes, mas faltou criatividade, cuidado, dedicação e competência (isso mesmo: competência) na manutenção: azedou. Nosso negócio faliu. Virou uma receita banal, destemperada, como muita conserva ordinária por aí... Agora cá estou, perdidinha, sem saber qual receita concluiria esse texto meio sem pé nem cabeça... De receitas o mundo virtual anda transbordando: tem receita de comida, de bebida; pra acabar com chulé, tirar bicho-de-pé; pra ser feliz, pra fazer feliz; pra acordar bem, pra dormir bem; pra emagrecer, pra engordar (não, pra isso acho que não tem); pra ter sucesso, pra não deixar o sucesso lhe subir à cabeça; pra achar marido e pra deixar o cretino... Então, nada de receitinha hoje, mas vai um conselho, e esse é dos bons, pode acreditar: cuidado com homens que não sabem cozinhar! Eles também não sabem amar. Bon appétit, porque sem esse, a vida perde um bocado da graça!


quinta-feira, 10 de julho de 2014

CORA E EU

Já passava das três da manhã quando um amigo, igualmente notívago, enviou-me uma mensagem que dizia mais ou menos o seguinte: “Oi querida, eis um pedaço do poema Cora Coralina, quem é você?, pensei em você: Sou mais doceira e cozinheira do que escritora, sendo a culinária a mais nobre de todas as Artes: objetiva, concreta, jamais abstrata, a que está ligada à vida e à saúde humana.” Diante de tal declaração, posso imaginar quão espetacular eram os pratos e os doces dessa distinta senhora. Não tenho, nem nunca terei- pois ainda me restam pitadas de bom senso e algum juízo- a pretensão de me comparar a ela, mas nisso somos iguaizinhas, cozinhamos melhor que escrevemos. Por isso, paro por aqui, pelo menos por enquanto, não escrevo mais nada. Vou sair de férias, recarregar a bateria usada, deixar a vida acontecer do jeito que ela quiser... Depois volto, trarei algumas histórias, é certo. E certamente estarão atreladas à comida, como sempre. Só mais uma coisa: obrigada Marcelo, pelo pensamento gentil. Obrigada Marcinho, pelo jantar caseiro para o qual- descaradamente- me convidei: arroz branquinho, carne moída refogada com cebola, abobrinha-verde suada (que era o desejo da noite), feijão com caldo grosso, saladinha verde... Gostoso, muito gostoso! Agradecemos, ele e eu, por nossos aparelhos digestivos estarem em melhor forma que nosso sistema respiratório, pois nem gripados, perdemos o apetite. Bon appétit, sempre!


sábado, 21 de junho de 2014

HEDONISMO DO SORVETE

Um dia desses, me deparei com uma reportagem na internet cujo título era: “Descubra se ela é boa de cama observando alguns sinais”. É o tipo de leitura que- você já está careca de saber- não vai acrescentar nada, absolutamente nada, em sua vidinha. Mas lá está você, e eu, e mais meio mundo lendo os conselhos, um a um, tim-tim por tim-tim... Havia uma meia-dúzia de itens, cada um com um título e algumas astúcias para a realização da tal descoberta. Três títulos chamaram minha atenção, todos ligados à comida, coisa mais óbvia. O primeiro, “Ela sugere comida tailandesa para o jantar”, alertava para a passividade de algumas mulheres em fazer suas próprias escolhas e afirmava que “uma mulher que sabe e diz o que quer tem mais chances de ser assertiva na cama”, ou seja, “ela assume a responsabilidade por seu próprio prazer”, logo, “facilita sua vida dizendo o que você deve fazer para satisfazê-la”. O título seguinte “Observe como ela come”, aponta os sinais, se você prestar “atenção no jeito que ela lida com a comida”. A coisa funcionaria mais ou menos assim: se ela comer devagar é possível que goste de fazer sexo demorado, então, prepare-se para longas preliminares... Sendo assim, dá pra concluir que se ela comer depressa, serão as rapidinhas a fonte de seu prazer? Agora vem a melhor parte do artigo, a chave do portal do paraíso; você saberá se a digníssima à sua frente combina ou não com você e para isto basta descobrir: “Qual tipo de sorvete ela gosta?”. Você acha que estou de brincadeira? Não mesmo. Existem estudos sobre o assunto e tem até uma neurologista envolvida na pesquisa. A coisa é chamada de hedonismo do sorvete. Foram correlacionados “testes de personalidade, seus sabores de sorvete preferido e os sabores preferidos de seu parceiro, e o status no relacionamento”. Descobriu-se que: “amantes de sorvete de café são dramáticos, sedutores, e paqueradores, além de compatíveis com fãs de sorvete de morango.” Mulheres que apreciam a baunilha são mais expressivas e podem se dar muito bem com homens que são chegados nos sorvetes de chocolate. E parece que “os amantes de sorvete de chocolate com menta nasceram um para o outro”, será? Só sei de uma coisa: sorvete, por si só, é uma inesgotável fonte de prazer; um prazer quase imoral, devasso, indecente... Boa sorte e bon appétit!

quinta-feira, 19 de junho de 2014

LE TEMPS DES CERISES


Le temps des cerises- O tempo das cerejas, literalmente- é o título de uma célebre canção francesa, escrita por Jean Baptiste Clément, em 1866. O texto, melancólico sem deixar de ser bonito, é impreciso e as palavras podem tanto evocar uma revolução fracassada, como um amor perdido. Há uma metáfora poética e uma “coincidência” cronológica entre a Semaine sanglante (Semana sangrenta: episódio que marca a execução em massa dos membros da Comuna de Paris) e a estação das cerejas. Outras análises da composição garantem que se trata, simplesmente, do amor (no caso, de uma profunda tristeza amorosa) e do final da primavera. Você não faz ideia da quantidade de vozes extraordinárias que interpretaram essa canção! Mas voltemos pra parte comestível da história... As irresistíveis frutinhas, que vão do amarelo brilhante, passando pelo vermelho-sangue, ao vermelho-escuro denso, quase negro, nos remetem também à doçura e ao verão que se aproxima. Sei, sei, estamos em junho, em pleno outono, mas minha cabeça está lá nos campos franceses... É chegado o tempo das cerejas por aquelas bandas e eu me alegro (e salivo) só em pensar... Difícil foi escolher uma única receita com cerejas, mas optei por uma de preparo rápido pra servir 8 pessoas educadas ou 4 gulosas. Providencie: 600g de cerejas, 40g de manteiga com sal (mais 20g pra untar a forma), 4 ovos, 200ml de leite, 100g de farinha de trigo, 60g de açúcar, açúcar de confeiteiro, 1 fava de baunilha (se tiver) e só. Agora aqueça o forno a 210°C. Lave as frutinhas, escorra e tire os cabinhos. Tem gente que retira os caroços, eu particularmente, acho isso uma frescura e, além disso, nas receitas clássicas francesas, as bolinhas ficam inteirinhas. Então, derreta a manteiga em uma panelinha de fundo espesso. Em uma tigela grande, misture a farinha e o açúcar. Junte os ovos um a um e depois o leite aos poucos, sem parar de mexer. Acrescente a manteiga derretida. Unte, com capricho, uma forma refratária, distribua as cerejas e jogue a massa por cima. Leve ao forno por aproximadamente 10 minutos, diminua a temperatura para 180°C e asse por mais 20 minutos. Sirva o Clafoutis de cerejas frio ou morno (eu acho que a vida é curta demais pra esperar uma delícia dessas esfriar). Não se esqueça de polvilhar o açúcar de confeiteiro, antes de servir. Decore, se der tempo, e bon appétit!