sábado, 4 de junho de 2016

CHÁ DE AEROPORTO


Há um tempão não escrevo nada. Hoje parece que vai ser diferente. Deu vontade. A frase displicente de uma colega de curso, postada em nosso grupo do zap, puxou o gatilho... Ela está saindo de férias e durante a despedida, declarou: "tomando chá de aeroporto, voo atrasado".
Chá de aeroporto... Chá de aeroporto... Todo mundo (ou quase) já experimentou, a maioria não gosta. Eu gosto. E não é pra ser a diferentona. Posso explicar. Chás são terapêuticos! De um jeito ou de outro, mas são.
Você já viu "Simplesmente amor"? O filme conta nove histórias de amor, mescladas às comédias e aos dramas de pessoas muito diferentes. Pode não ser um filmaço que marcará o mundo cinematográfico, mas o início e o finalzinho da película mostram cenas lindas, relativamente comuns, de pessoas reais no burburinho do saguão de um aeroporto qualquer. Tem choro salgando a dor da despedida; abraços doces festejando o reencontro; beijos picantes temperando a paixão, beijo fraterno, beijo de mãe que tem gosto de salvação; há troca de olhares profundos, aperto de mão, tapinhas nas costas que valem por uma declaração; sorrisos que gritam em silêncio na curvinha tímida dos lábios... Definitivamente, eu gosto de chá de aeroporto! E esse chá, que por vezes é amargo, tem lá sua serventia! Enquanto tomo meu chá, observo: é tanta gente indo, tanta gente vindo; dando adeus, dando beijo, dando bronca, dando birra, dando flores, dando piti... Também tem gente fingindo, gente perdida fugindo (de si mesmo ou de outro igualmente perdido), tem gente com cachorro, com gato, com criança (esse bichinho que se parece tanto com a melhor versão de gente grande)... Chá de aeroporto aguça o pensamento, a imaginação e pode até abrandar o coração se você souber aproveitar! Tem gente que vai dizer que gosto do tal chá porque é de família, está no meu sangue, mas garanto que minha apreciação tem outro fundamento: gosto porque nele tem movimento, conversa fiada, cochicho, bocejo, choro, risos, olhares curiosos, cheiro de café, cheiro de perfume, de suor, cheiro de gente; tem corre-corre pra entrar em filas, corre-corre pra sair das filas; tem criança quase sempre em chororô por não entender o motivo de tanta mala, tanta aporrinhação... Tem sangue circulando, tem vida. Pode ser sua última partida, mas ainda assim, faz parte do espetáculo da vida. Da próxima vez que lhe enfiarem um chá de aeroporto goela abaixo, não reclame, afinal, melhor tomar chá de aeroporto que chá de sumiço!
Pois muito bem, viajação concluída, vamos ao que interessa, já que esse blog é de receitas (pode até não parecer, mas é esse o intuito). A receita é bem simples, porém original, delicada e saborosa: "Ovo cozido no chá". Você vai precisar de: 6 ovos, 3 saquinhos de chá preto, 2 pedaços de anis, 1 pequeno pau de canela, água (claro!), 2 colheres de chá de açúcar, 5 colheres de sopa de molho de soja.
Faça assim: encha uma panela com água. Coloque dentro os ovos e cerca de 5 gramas de sal e deixe cozinhar em fogo médio por 15 minutos. Em seguida, retire os ovos e deixe-os de molho em água fria. Bata a casca dos ovos com uma colher, até que esta comece a rachar. Coloque em uma panela o anis, a canela, os saquinhos de chá preto e os ovos descascados. Junte água suficiente para que os ovos fiquem submersos. Em seguida, adicione açúcar, molho de soja e sal a gosto e mexa bem.
Cozinhe os ovos em fogo brando por 20 minutos. Para finalizar, desligue a boca do fogão e deixe os ovos de molho aí por mais 3 ou 4 horas, dando tempo para que estes absorvam melhor o tempero. . Apesar de ter um sabor delicioso, esses ovos não são recomendados na alimentação de idosos e mulheres grávidas. 
Bon appétit!

segunda-feira, 8 de junho de 2015

PAU DOCE

Foi na página virtual de um amigo real que me deparei com a seguinte pergunta: Você já comeu Pau doce? Pois muito bem, você que me conhece um bocadinho, que vez ou outra compartilha meus escritos, já deve ter uma ideia do tamanho da minha curiosidade no que se refere à comida e afins. Pau doce, pau doce... Por que cargas d’água eu, aos 53, jamais provara um pau doce?! Tive vergonha de deixar a postagem sem resposta. Declarar um sonoro Não seria quase humilhante. Relutei. Mandei ver: Comer, comer, não... Parei por aí e fui buscar, ali e acolá, mais sobre o tal pau doce. Pra começar, descobri que o protagonista dessa conversa tem um monte de apelidos: Bananinha-do-Japão, Chico-magro, Gomari, Macaquinho, Mata-fome, Pé-de-galinha, Tripa-de-galinha, Uva-da-China, Passa-do-Japão... Não, não mesmo, jamais tivera o prazer de abocanhar um pau doce, concluí entristecida. Continuei a busca. O pau doce é uma cápsula seca e marrom-avermelhada, sustentada por pedúnculos carnosos e docinhos, e cada pauzinho contém de duas a quatro sementes amarronzadas. De sabor aprazível quando consumido maduro, deve ser evitado verde por seu sabor adstringente e descartado quando passado, pois fermenta e fica com gosto alcoólico. Na boca revela-se crocante e muito doce, e no final bem fibroso. Foi o que aprendi. Enfim, é um fruto exótico que mais parece um talo; ou seria um talo exótico, doce, fibroso que lembra sei-lá-o-quê?? Quero nem saber, não morro sem provar, pode apostar! Bon appétit!



sábado, 30 de maio de 2015

PAPO SOBRE CORTES

Vou caducar vendo coisas inusitadas no mundo virtual. Um mundo de imagens e palavras desfilando a uma velocidade estonteante, diante de olhos e ouvidos curiosos... É sobre uma dessas imagens que vamos conversar. Trata-se da foto de um produto de supermercado, embalado e devidamente etiquetado, como manda o figurino. A história começa aqui. Sobre a etiqueta com código de barras, lê-se: PRECHECA/ Peso: 1.016/ Preço kg: 16,50/ Total: 16,76. Na parte superior da postagem, a indignação, digo, a indagação: “Alguém me explica que carne é essa???” E é claro que compartilhei a tal foto, na tentativa de obter mais informação para a curiosa parte. Você pode imaginar o alvoroço diante do tão cobiçado talho, e a partir daí, a conversa rolou solta! Resolvi então, na medida do possível, transcrever alguns comentários e dicas sobre a tal precheca a 16, 50 o quilo. De cara, um amigo disse que queria dois quilos sem osso, o que causou o maior espanto em outra amiga que retrucou de pronto: “Essa qualidade de carne não pode ir pro congelador. Vc vai comer tudo de uma só vez?!” A resposta dele é melhor deixar pra lá. Um outro, mais abusado, perguntou se era Friboi e confessou não fazer ideia de como se prepara uma precheca, afinal, ele sempre gostou mesmo é de músculo. Entendi. Uma outra disse que o quilo da precheca estava caro pra cassete; e mais um curioso queria saber se o tal corte ficava perto da sambiquira... Observem que pouco se sabe sobre precheca. Tenho cá meus conhecimentos sobre comidas e afins e prometo não economizar esforços para desvendar o mistério desse talho milenar... Pra começar devo dizer que trata-se de uma parte delicada, de tecido macio, porém firme, suculenta se preparada comme il faut. É um pedaço nobre, mas não se deixe enganar: tem precheca que não vale um pequi roído! Atenção na hora de escolher a sua! Uma boa precheca não se acha em qualquer esquina. Outra dica importante: a cor da precheca não define sua qualidade. Há uma gama de prechecas à disposição. Precheca saudável, gordinha ou magrinha (vai do gosto de cada qual), tem que ser limpa, bem tratada e fresquinha. Outra questão capital: o preparo da precheca. Aqui não há regras severas: cada um prepara a sua à sua moda e desejo. Porém, a melhor precheca é a in-natura, ricamente temperada pela Mãe Natureza. Nada de sal, pimenta ou qualquer outro condimento picante, no máximo, algumas gotas de azeite extra-virgem pra hidratar a superfície, e basta! Receita não vou dar, mas não despreze meus conselhos: precheca vai bem com outras partes igualmente gostosas: combine-a com músculo, picanha e língua. Sirva sempre bem quente (carnes mornas são indigestas) e terá muita satisfação. Aguce sua fome e aproveite! Bon appétit!


domingo, 29 de março de 2015

REFLEXÕES DOMINGUEIRAS

Passei um pedaço da tarde deste domingo na companhia de duas amigas que estão a mil com um projeto novo: a produção de conservas artesanais: tem a caponata de berinjela, a conserva de batatinhas, e a de alho que fica suave e crocante como uma castanha. Todas deliciosas, preparadas com ingredientes de primeira linha e muita, muita dedicação. De volta pra casa, sob uma chuvinha preguiçosa, desci os vidros do carro pra deixar os pingos lerdos e frescos entrarem pelas janelas... De que adiantariam o azeite extra virgem espanhol, o vinagre de maçã, o bom vinho branco seco, os temperos fresquinhos, a medida certeira do sal e da pimenta, se não houvessem a criatividade, a competência, o capricho, a dedicação e o carinho no preparo? Juntei as pontas, conclui: boa comida e relacionamento amoroso precisam das mesmíssimas coisas: ingredientes bons e algum savoir-faire pra virar uma coisa boa, caso contrário, o “negócio” fracassa! Saí há pouco de um relacionamento que contava com bons ingredientes, mas faltou criatividade, cuidado, dedicação e competência (isso mesmo: competência) na manutenção: azedou. Nosso negócio faliu. Virou uma receita banal, destemperada, como muita conserva ordinária por aí... Agora cá estou, perdidinha, sem saber qual receita concluiria esse texto meio sem pé nem cabeça... De receitas o mundo virtual anda transbordando: tem receita de comida, de bebida; pra acabar com chulé, tirar bicho-de-pé; pra ser feliz, pra fazer feliz; pra acordar bem, pra dormir bem; pra emagrecer, pra engordar (não, pra isso acho que não tem); pra ter sucesso, pra não deixar o sucesso lhe subir à cabeça; pra achar marido e pra deixar o cretino... Então, nada de receitinha hoje, mas vai um conselho, e esse é dos bons, pode acreditar: cuidado com homens que não sabem cozinhar! Eles também não sabem amar. Bon appétit, porque sem esse, a vida perde um bocado da graça!


quinta-feira, 10 de julho de 2014

CORA E EU

Já passava das três da manhã quando um amigo, igualmente notívago, enviou-me uma mensagem que dizia mais ou menos o seguinte: “Oi querida, eis um pedaço do poema Cora Coralina, quem é você?, pensei em você: Sou mais doceira e cozinheira do que escritora, sendo a culinária a mais nobre de todas as Artes: objetiva, concreta, jamais abstrata, a que está ligada à vida e à saúde humana.” Diante de tal declaração, posso imaginar quão espetacular eram os pratos e os doces dessa distinta senhora. Não tenho, nem nunca terei- pois ainda me restam pitadas de bom senso e algum juízo- a pretensão de me comparar a ela, mas nisso somos iguaizinhas, cozinhamos melhor que escrevemos. Por isso, paro por aqui, pelo menos por enquanto, não escrevo mais nada. Vou sair de férias, recarregar a bateria usada, deixar a vida acontecer do jeito que ela quiser... Depois volto, trarei algumas histórias, é certo. E certamente estarão atreladas à comida, como sempre. Só mais uma coisa: obrigada Marcelo, pelo pensamento gentil. Obrigada Marcinho, pelo jantar caseiro para o qual- descaradamente- me convidei: arroz branquinho, carne moída refogada com cebola, abobrinha-verde suada (que era o desejo da noite), feijão com caldo grosso, saladinha verde... Gostoso, muito gostoso! Agradecemos, ele e eu, por nossos aparelhos digestivos estarem em melhor forma que nosso sistema respiratório, pois nem gripados, perdemos o apetite. Bon appétit, sempre!


sábado, 21 de junho de 2014

HEDONISMO DO SORVETE

Um dia desses, me deparei com uma reportagem na internet cujo título era: “Descubra se ela é boa de cama observando alguns sinais”. É o tipo de leitura que- você já está careca de saber- não vai acrescentar nada, absolutamente nada, em sua vidinha. Mas lá está você, e eu, e mais meio mundo lendo os conselhos, um a um, tim-tim por tim-tim... Havia uma meia-dúzia de itens, cada um com um título e algumas astúcias para a realização da tal descoberta. Três títulos chamaram minha atenção, todos ligados à comida, coisa mais óbvia. O primeiro, “Ela sugere comida tailandesa para o jantar”, alertava para a passividade de algumas mulheres em fazer suas próprias escolhas e afirmava que “uma mulher que sabe e diz o que quer tem mais chances de ser assertiva na cama”, ou seja, “ela assume a responsabilidade por seu próprio prazer”, logo, “facilita sua vida dizendo o que você deve fazer para satisfazê-la”. O título seguinte “Observe como ela come”, aponta os sinais, se você prestar “atenção no jeito que ela lida com a comida”. A coisa funcionaria mais ou menos assim: se ela comer devagar é possível que goste de fazer sexo demorado, então, prepare-se para longas preliminares... Sendo assim, dá pra concluir que se ela comer depressa, serão as rapidinhas a fonte de seu prazer? Agora vem a melhor parte do artigo, a chave do portal do paraíso; você saberá se a digníssima à sua frente combina ou não com você e para isto basta descobrir: “Qual tipo de sorvete ela gosta?”. Você acha que estou de brincadeira? Não mesmo. Existem estudos sobre o assunto e tem até uma neurologista envolvida na pesquisa. A coisa é chamada de hedonismo do sorvete. Foram correlacionados “testes de personalidade, seus sabores de sorvete preferido e os sabores preferidos de seu parceiro, e o status no relacionamento”. Descobriu-se que: “amantes de sorvete de café são dramáticos, sedutores, e paqueradores, além de compatíveis com fãs de sorvete de morango.” Mulheres que apreciam a baunilha são mais expressivas e podem se dar muito bem com homens que são chegados nos sorvetes de chocolate. E parece que “os amantes de sorvete de chocolate com menta nasceram um para o outro”, será? Só sei de uma coisa: sorvete, por si só, é uma inesgotável fonte de prazer; um prazer quase imoral, devasso, indecente... Boa sorte e bon appétit!

quinta-feira, 19 de junho de 2014

LE TEMPS DES CERISES


Le temps des cerises- O tempo das cerejas, literalmente- é o título de uma célebre canção francesa, escrita por Jean Baptiste Clément, em 1866. O texto, melancólico sem deixar de ser bonito, é impreciso e as palavras podem tanto evocar uma revolução fracassada, como um amor perdido. Há uma metáfora poética e uma “coincidência” cronológica entre a Semaine sanglante (Semana sangrenta: episódio que marca a execução em massa dos membros da Comuna de Paris) e a estação das cerejas. Outras análises da composição garantem que se trata, simplesmente, do amor (no caso, de uma profunda tristeza amorosa) e do final da primavera. Você não faz ideia da quantidade de vozes extraordinárias que interpretaram essa canção! Mas voltemos pra parte comestível da história... As irresistíveis frutinhas, que vão do amarelo brilhante, passando pelo vermelho-sangue, ao vermelho-escuro denso, quase negro, nos remetem também à doçura e ao verão que se aproxima. Sei, sei, estamos em junho, em pleno outono, mas minha cabeça está lá nos campos franceses... É chegado o tempo das cerejas por aquelas bandas e eu me alegro (e salivo) só em pensar... Difícil foi escolher uma única receita com cerejas, mas optei por uma de preparo rápido pra servir 8 pessoas educadas ou 4 gulosas. Providencie: 600g de cerejas, 40g de manteiga com sal (mais 20g pra untar a forma), 4 ovos, 200ml de leite, 100g de farinha de trigo, 60g de açúcar, açúcar de confeiteiro, 1 fava de baunilha (se tiver) e só. Agora aqueça o forno a 210°C. Lave as frutinhas, escorra e tire os cabinhos. Tem gente que retira os caroços, eu particularmente, acho isso uma frescura e, além disso, nas receitas clássicas francesas, as bolinhas ficam inteirinhas. Então, derreta a manteiga em uma panelinha de fundo espesso. Em uma tigela grande, misture a farinha e o açúcar. Junte os ovos um a um e depois o leite aos poucos, sem parar de mexer. Acrescente a manteiga derretida. Unte, com capricho, uma forma refratária, distribua as cerejas e jogue a massa por cima. Leve ao forno por aproximadamente 10 minutos, diminua a temperatura para 180°C e asse por mais 20 minutos. Sirva o Clafoutis de cerejas frio ou morno (eu acho que a vida é curta demais pra esperar uma delícia dessas esfriar). Não se esqueça de polvilhar o açúcar de confeiteiro, antes de servir. Decore, se der tempo, e bon appétit!



domingo, 8 de junho de 2014

O PÃO DO CASTIGO


  • Na receita tem carne e/ou frango moídos, queijo cheddar, cenoura, espinafre, feijão, batata, tomate, leite em pó, uva passa e pão de trigo integral. Fácil de preparar, baixo custo e com tudo que a gente precisa. Até aqui tudo bem e pode até ser tentador para alguns, mas o nutraloaf, o “pão nutritivo”, não tem absolutamente gosto de nada! O tal pão é completamente neutro ao paladar. Cada um dos ingredientes foi escolhido, com cuidado, para anular o sabor dos demais com o intuito de "criar” o gosto de nada. O nutraloaf é o alimento servido em algumas prisões dos Estados-Unidos e segundo a Aramark Correctional Services, uma das muitas produtoras da gororoba, o objetivo é nutrir os presos que se comportam mal. Isso mesmo. Os detentos mais rebeldes passam algum tempo comendo, exclusivamente, dois pães nutritivos diariamente. É esse o castigo! A polêmica está rolando solta por aquelas bandas e presos de sete Estados americanos estão processando o Tio Sam, alegando que isso é mais que castigo, é tortura (sou obrigada a concordar com eles). Alguns venceram em primeira instância e no Estado de Ilinois, onde um preso fez greve de fome, os outros detentos recorreram e o julgamento foi reaberto. O alimento foi apresentado a críticos culinários que provaram e constataram que, indiscutivelmente, a “coisa” é totalmente desprovida de sabor. “Eu queria sentir qualquer sabor, até se fosse ruim”, disse Jeff Ruby, da revista Chicago. Mas ele não conseguiu terminar o maldito pão e parece que ficou enjoado e indisposto pelo resto do dia. Agora, estou eu aqui pensando... O alimento em si nos mantém de pé, mas não seria o prazer que o paladar nos proporciona que nos mantém vivos e alegres? Deus nos livre de um castigo desses! Eu morreria, literalmente, de desgosto. Bon appétit.


quarta-feira, 28 de maio de 2014

EM DIAS DIFÍCEIS

E as horas não passam, a melhora vem a passinhos tão miúdos... Têm dias tão difíceis, aqueles quando a doença assola, que o corpo todo doído só quer calma, cama, cafuné e canja. Feliz daquele que tem com quem contar. Feliz daquele que tem quem lhe prepare a comida restauradora. Pois, “Cozinhar é o mais privado e arriscado ato. No alimento se coloca ternura ou ódio. Na panela se verte tempero ou veneno. Cozinhar não é serviço. Cozinhar é um modo de amar os outros.” É o destempero do corpo que aniquila o apetite, e gente sem apetite é gente doente. Pior que isso é ver gente pequena inapetente, criança mirradinha, caída; sem bochechas rosadas, sem dobrinhas pelo corpo que, por lei divina, tem que ser roliço... Foram dias difíceis, sem apetites, o de fome e o de vida.  Aí se entende e o que se ouve dos mais vividos: “Pra ser feliz, minha filha, basta ter saúde. O resto não tem pressa”. É. Entendi. Aprendi. É que não se dá muita bola pra saúde enquanto a doença não amola. Amolar também é afiar e afiar é melhorar o fio, e isso é bom. Então adoecer deve ter seu lado bom (dizem por aí que tudo tem seu lado bom, mas tenho cá algumas dúvidas), pelo menos um tem que ter. E tem, alguns: a doença aproxima ainda mais as pessoas que se gostam. A doença cutuca a humildade adormecida. Ela nos faz aceitar naturalmente a caridade. A bendita doença nos obriga a nos entregar aos cuidados do outro. O “eu me basto” perde as forças e o “eu me entrego” acende a confiança. Isso é humano, é bom. E tem mais: na doença tem leitinho queimado com canela, tem sopa quente tomada na cama macia e cheirosa; tem cafuné, meia no pé; dá pra fazer um pouco de manha, chorar um bocadinho que lá vem mais café e carinho... E no final, agradeça àqueles que te voltaram pro eixo. A gratidão também cura, cura um bocado das mazelas da vida. Cozinhe para eles! Agora é a sua vez de verter na comida, o amor recebido. Saúde! Bon appétit!




sexta-feira, 11 de abril de 2014

SANDUICHEZINHO CARO! É DE OURO?


Cem dólares, aproximadamente setenta euros, digamos, duzentos e cinquenta reais por um sanduba, você pagaria? Sanduichezinho caro! É de ouro? É. Quer dizer, não é, mas tem! As extravagâncias em matéria de ingredientes e os preços exorbitantes não são nenhuma novidade no mundo da gastronomia. Quando menos se espera, pimba, lá vem mais uma “gracinha” surpreendente de um chef estrelado. Desta vez é o bar e restaurante Deca, do luxuoso hotel Ritz-Carlton de Chigago que está sob os holofotes com o “Zillion dollar grilled cheese”: um sanduíche preparado com um queijo cheddar de Wisconsin de 40 anos incrustado de folhas de ouro 24 quilates. Isso mesmo. E a coisa não para por aí: os demais ingredientes são tão impressionantes quanto. Quer anotar pra fazer o seu?
 Pão artesanal assado com um azeite de oliva de luxo (Laudemio Marchesi); presunto Ibérico (porcos espanhóis alimentados de maneira especial e presunto maturado por pelo menos doze meses) ca-rís-si-mo! Tem mais: tomates da fazenda da família Ellis (não faço a menor idéia de quem sejam) passados na frigideira (que deve ser A frigideira, claro) com vinagre balsâmico centenário, sim, de cem anos! Aioli de trufa branca; foie gras fabricado sei lá onde; ovo de pata pra coroar o pato, digo, prato. Agora, se o freguês não ficar satisfeito, o sanduichezinho vem acompanhado de uma tigelinha de massa com queijo e lagosta, um mimo do restaurante para o cliente, pode? E eu aqui comendo bauru ou, pra ser chic, um Croque-monsieur de vez em quando com saladinha verde... Só que amanhã todos os sandubas, os folheados a ouro e os outros que de brilho só têm a manteiga, tornar-se-ão igualmente orgânicos. Bon appétit.