Outro dia uma leitora me perguntou de onde vinha minha inspiração pra escrever semanalmente. Pra começar, não escrevo religiosamente toda semana. Posso passar dias sem vontade de escrever e de repente, bum, a coisa vem e eu me solto e passo horas debruçada no computador, ou rascunhando com qualquer coisa que rabisque (já usei até lápis de olho pra anotar uma frase que me veio, assim, do nada, em uma sala de espera) e uma coisa me leva a outra, a outra... Cada texto é quase um parto sem dor: tem começo, meio e pimba, a história nasce. Bem ou mal, mas nasce. Muita coisa me inspira, quase tudo me inspira... Quisera poder observar mais, sorver mais, sentir mais, escrever mais... Vou dar um exemplo. Terça-feira passada, um amigo me convidou pra almoçar. Um risoto surpresa. Aceitei de pronto. Gosto de jeito desajeitado de cozinhar do meu amigo. Saí de casa com a intenção de comer bem, falar de um livro cuja crítica ele lera na Veja, tomar um cafezinho, depois trabalhar e só... Minha intenção não bastou. A alguns metros do meu destino, bum, lá estava eu envolvida em um acidente de trânsito, e meu almoço trocado por um telefonema pra seguradora, um B.O. no DETRAN (até agora me pergunto pra que serve o tal papel), muita conversa jogada fora, oficina mecânica... Felizmente já passou. Já esqueci. Foi só lataria. Mas ainda lamento o risoto que não provei, acredita? Não gosto de desperdício de alimentos, muito menos de desperdício de bons momentos. É assim que funciona comigo. Até uma amolação pode me servir de (ins)piração. Meu amigo não me deu detalhes do preparo do tal risoto. Agora estou eu, aqui, matutando pra achar uma receitinha que se encaixe nessa conversa... Já que falei em desperdício, que tal apurar um bocadinho l’art d’utiliser les restes? A arte de utilizar as sobras pode ser surpreendente. O “Viradinho Valente e Viril” é a prova disso. Use 300gr de sobras de carne desfiada ou em cubos, 60gr de manteiga, alho laminado a gosto, 1 cebola picada, 1 concha de feijão cozido e escorrido, bacon picado frito, 4 ovos mexidos, 1 xícara de passas sem sementes, 300gr de sobra de arroz branco cozido, 1 fio de azeite, ½ xícara de castanha de caju picada.Refogue a carne na metade da manteiga. Em outra frigideira, doure a cebola e o alho com a outra metade. Junte o feijão, o bacon, os ovos, as passas e por último o arroz. Regue com azeite. Junte as castanhas e sirva. É pra comer sem frescuras!
Bon appétit!




É verão, e verão sem melancia perde um bocado da graça. Sou ‘Magali’ por melancia, mas a menina gulosa que mora em mim já beira os cinquenta, e nessa idade, meu amigo, pode-se um monte de coisas, permite-se muito mais. É o encanto de vários verões acumulados, acredite! Agora, parcimônia fica pra quem ainda precisa dela, pra quem ainda tem a voz embargada, pra quem acha que não pode errar; pra quem rotula e quem se enquadra; pra quem ainda não aprendeu a rir de si mesmo. O tempo é um mestre sábio, mas exigente demais. Tinha, graças a Deus, que ter algo pra compensar os tropeços, as panes do corpo. É a doce rebeldia da maturidade que brota, sabe-se lá de onde... A vida rolando lá fora e eu, aqui, falando da frutona; e nem é a primeira vez que reparto esse assunto com você. É que nunca é tarde pra melhorar o que já é bom. As frutas são assim, absurdamente boas. Outro dia, vi uma reportagem no JH que catalogava as frutas, com ajuda de um especialista, por faixa etária. Adolescentes, moçoilos e moçoilas até os 19 devem devorar maçãs, morangos e açaí pra prevenir a anemia e a obesidade e ‘sarar’ a musculatura. Dos 20 aos 29 anos, a ordem é comer abacate, abacaxi e a bendita melancia que ajudam na regularização do colesterol, como digestivo e atuam na prevenção do câncer de mama e da próstata. Dos 30 aos 39, coco, pêssego e uva reduzem o colesterol. Dos 40 aos 49, dá-lhe caju como diurético, ameixa contra as doenças intestinais e melão que socorre na perda de peso. Chegar vivo e bem aos 50 já é bom demais e até os 59, nunca dispense uma boa manga que previne a desnutrição, a jabuticaba pra reter menos líquido e a pera, sei lá pra quê. Depois dos 70 (tomara que eu ainda esteja por aqui), é a vez da goiaba e da cereja, boas para a circulação e eficazes contra o reumatismo; e as uvas que garantem a longevidade e blá blá blá... Se você reparar, nada foi sugerido dos 60 aos 69. Pois bem, vai aqui uma dica que vale também a partir dos 18. A Melancia trôpega. Compre uma melancia média e madura, lave-a, seque-a. Faça um furo no centro dela com um boleador de frutas. Introduza todo o cano de um funil no orifício e vá regando, aos poucos, com a melhor vodka que tiver. Faça isso durante dois dias (conserve-a na geladeira) e sirva em fatias, no início ou no final da refeição... Ah se ela pudesse, rolaria toda trôpega, feliz da vida, feito gente que saiu da linha, que perdeu o eixo, que se deixou levar. Valha-me Deus, que delícia! Bon appétit.























